sábado, 14 de junho de 2014

À beira do penhasco



Todas as manhãs, via-se uma donzela dançante à beira de um penhasco. Chamavam-na de Auri.
Auri era uma das moças mais belas do vilarejo. Era delicada como a mais simples das flores, e seus cabelos loiros continham o mais belo pedaço do sol. Auri era cobiçada por muitos; sua beleza era magnífica. Possuía singelos olhos azuis, lábios rosados e cabelos negros que caiam como ondas do mar até a cintura. Auri era órfã de mãe e filha de um pobre lenhador que gastava todo o seu dinheiro com a bebida, na tentativa de esquecer velhas angústias. Vivia com os padrinhos, como empregada, em troca de teto e comida. Apesar de tudo, a moça estava sempre a sorrir. Auri era apaixonada por um grande caçador chamado Alceu. Alceu era de família rica e estava prestes a se casar com uma bela moça chamada Catarina, como que por obrigação. Catarina era apaixonada por José, que tempos atrás partiu sem ao menos lhe dizer adeus. Auri passava em frente à casa de Alceu todas as manhãs e lhe sorria. Alceu nunca reparou em Auri pois lhe era ensinado desde seus primeiros passos que ele não devia olhar para àqueles de classe inferior.
Certa vez, Alceu estava a conversar com um de seus periquitos de estimação, lhe confessando que às vezes ouvia vozes lhe dizendo para ir até o penhasco e que achava estar louco. Então Alceu escutou risos a sua volta e percebeu que eram seus pássaros. Alceu se assustou e correu, deixando a porta do enorme viveiro aberta; todos os seus pássaros se foram. Os pássaros voaram em direção ao penhasco e Alceu tentou lhes alcançar. Ao olhar em direção ao penhasco, Alceu viu Auri a dançar e se assustou. “Ora, que moça louca! ” Ele disse. “Ela está a querer se matar? ”. Quando os pássaros chegaram ao penhasco, o periquito pousou ao ombro de Auri. “O que queres, belo pássaro? ” Disse Auri. Então, o pássaro lhe respondeu: “Voe comigo, moça. Hoje está frio, lhe darei abrigo. ” Auri lhe sorriu e disse: “Hoje não, meu belo. Talvez amanhã. Meu amor irá se casar. ” Alceu observava de longe quando seus pássaros voaram e sumiram ao horizonte. Então, Auri correu para casa; estava frio e precisava servir seus padrinhos.
Na aurora da manhã seguinte, Auri passou à porta da casa de Alceu, como de rotina, e não o viu lá. “Alceu está a caçar! ” Lhe respondeu o coelho do jardim. “Tudo bem. Transmita meu sorriso a ele. ” Disse Auri. Então Auri foi para casa, decepcionada consigo mesma por pensar que poderia ser diferente. Alceu caçou um grande lobo e estava a caminho de casa quando resolveu passar ao rio para se lavar. Viu em uma árvore seu periquito e gritou: “Ora, seu! Estava a lhe procurar! Porque me abandonastes? ” “Vá ao penhasco, Alceu. ” Lhe disse o pássaro. Alceu riu e então o pássaro se foi.
Semanas depois, chegou o tão esperado casamento de Alceu. Todo o vilarejo fora convidado, com exceção dos de classe inferior. Auri acordou com um grande sorriso no rosto; fizera todas as suas obrigações e fora para seu penhasco, carregando ainda angústia no peito. O sino da igreja soou; eram 18 horas. Uma tempestade estava a caminho, as enormes ondas do mar batiam nas rochas do penhasco. Auri estava a dançar junto ao vento quando viu o periquito pousar em seu ombro. “Quando virás voar comigo, moça? ” Lhe disse o periquito. “Talvez hoje, meu belo. Meu amor irá se casar. ” Disse Auri. “Então voe” disse o pássaro. Auri lhe sorriu e viu que um enorme clarão vinha do céu já escuro. Auri se aproximou da beira do penhasco e começou a dançar. Os que estavam prestes a entrar na igreja para o casamento de Catarina e Alceu, perceberam a moça a dançar e começaram a murmurar. “Olhem, a moça louca está novamente a dançar! ” Diziam. Então, Alceu escutou novamente a voz: “Vá ao penhasco, Alceu. ” Alceu olhou para o penhasco e viu Auri a beira, percebendo finalmente o quão bonita a moça era, e reconhecendo-a como a bela donzela que era a única a lhe dizer “Olá! ” pela manhã, o olhando nos olhos. Mas era tarde, Auri então voou junto ao periquito, caindo de encontro às rochas do penhasco e sendo levada junto ao mar.
Minutos depois, Alceu arrasado estava. Confuso por estar de tão profunda tristeza, sendo que nem sabia o nome daquela moça louca, como era julgada. Auri não sabia, mas a loucura também era do mesmo gosto de Alceu, e ele também adorava passear às escondidas para conversar com seus únicos amigos pássaros. Alceu também dançava ao penhasco todos os dias, mas no fim, apenas Auri teve a ousadia e coragem de voar.

Dizem que Auri continua a voar livremente, enquanto Alceu ainda dança à beira do penhasco, preso a um casamento falso sem vontade alguma de viver. Dizem que Alceu daria tudo para ter conhecido a moça e, quem sabe, estar voando junto à ela nos dias atuais, mas hoje nada resta a Alceu a não ser apenas a vontade de saber voar.

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