Lembro-me que costumava machucar.
Olhar pra todas aquelas pessoas andando, correndo atrás dos ônibus, pedindo caronas, vendendo, comprando, ignorando umas às outras, conversando, fazendo barulho... O ar da civilização.
Bom, ao menos da janela desse meu quarto consigo ver perfeitamente tudo. O que diabos tinha dado em minha cabeça quando aluguei este apartamento bem no centro da cidade?
Bom, estou fugindo do ponto...
O negócio é que essa é a última coisa que vou escrever. Não faço ideia se alguém vai ler ou se ele vai ser pelo menos achado nessa bagunça que se tornou minha vida, ou meu quarto, tanto faz, chame do que quiser.
Então, o que um escritor escreve como nota final a seus leitores? (se ao menos eu tivesse isso...) Ãhn, sei lá. Acho que vou contar um pouco como tenho passado. É, pode ser.
Estou totalmente perdido. Não sentimentalmente, quer dizer, também, mas principalmente de maneira inteira. Seria essa a palavra certa? Sei lá.
Estou num quarto de hotel que eu mesmo aluguei. É um hotel barato, nada lá essas coisas, mas "dava pro gasto", como o meu vizinho costuma dizer. O nome dele é Leandro, acho. Ou qualquer coisa que comece com L. Todos os fins de semana o ouço brigando com a mulher, é triste. Vejo ele na sacada nas madrugadas e às vezes compartilho dum cigarro com ele. Dá pra ver o quão infeliz alguém pode ser.
Fugindo do ponto de novo, desculpem.
Estou parado aqui, debruçado na sacada, com um cigarro entre os dedos. Aliás, vou revezando entre escrever essas palavrinhas e tragá-lo. Acho que tenho direito a me sentir calmo uma última vez.
Minha rotina é essa: chego do trabalho, que aliás é um saco, como qualquer outro trabalho que já tive; como qualquer porcaria, fast food ou uma droga dessas e debruço nessa sacada, observando lá embaixo.
Devo morar no 11º ou 12º andar, não me recordo. Memória boa nunca foi meu forte. Nunca tive muitos "fortes", muitas virtudes. Então, daqui dá pra ver bastante coisa. Vejo as silhuetas de meus "conterrâneos" e continuo a observar e imaginar o que cada um deles já deve ter passado ou vivido e se algum deles algum dia vai se perdoar. É. Se perdoar. Sei que a maioria nunca se perdoa por algum erro cometido. Algum amor adolescente perdido, ou alguma coisa que deveria ter dito, ou desculpas que deveria ter pedido, sei lá. Só sei que é assim. Deve ser.
Às vezes fumo um ou dois cigarros. Sinto a brisa da noite passando suavemente entre as linhas tênues de um rosto surrado que é o meu e me sinto uma pessoa melhor. Mas é passageiro, como qualquer outra coisa.
Falando nisso, eu não sou ninguém importante, não se preocupe. Meu nome pode até sair nos jornais daqui uns dias, então não há motivo pra eu escrevê-lo aqui.
Sou um ser humano inútil e sozinho, como a maioria de vocês já deve ter sido um dia. Se não foi, bom, sorte suas, eu acho. Não conheço outra vida a não ser essa que tenho vivido à tantos anos.
Tenho 56 anos. Sou mal humorado porque nunca pude realizar meus sonhos e tenho um gato de nome Billy. Acho que é só isso que precisam saber, o resto vai estar nos jornais. Quero dizer, isso se acharem minha carteira, já que nem eu sei aonde diabos ela foi parar.
Não queria uma despedida como todas as outras, uma carta brega dizendo do que me arrependo e de quem vou sentir falta. Eu faria, mas é mais fácil dizer que me arrependo de tudo e que vou sentir falta de quem eu poderia ter sido, é só.
Outra coisa: tenho motivos pra fazer isso. Sei que é o que todos dizem, mas tanto faz. Eu tenho, e ele é bem simples: eu cansei de tudo, tipo, de saco cheio mesmo.
Não quero viver uma vida aonde não terei filhos, nem nunca mais olharei nos olhos da mulher que amo profundamente, já que ela me abandonou há um bom tempo atrás, nem aonde tenho que me humilhar todos os dias pra poder comprar algo o que comer.
Prefiro ser a base do que sempre fui: um saco de carne que só fica em pé pois é sustentado por um monte de ossos.
Bom, logo não estarei mais em pé.
Ao menos deixarei esta pequena, ou nem tão pequena nota pra quem quer que queira ler.
Ensinamentos de um velho escritor que poderia ter sido muito, mas não foi nada graças à vida.
E o que é a vida, lhe pergunto?
A vida é uma caverna enorme e escura aonde somos obrigados a ficar. Andamos pra lá e pra cá; às vezes nos perdemos; às vezes batemos em alguma rocha qualquer que fica no meio do caminho; às vezes caímos em buracos e demoramos pra poder achar o caminho de volta à superfície; às vezes simplesmente ficamos parados no mesmo lugar, assustados; às vezes até trombamos com outras pessoas, afinal, só existe uma dessa caverna.
Um dia encontrará uma fresta. Uma fresta de luz, ou uma tocha. Brilhará e extinguirá todos os medos que você algum dia já teve, e então passarás a enxergar.
É isso que lhe digo. Ache a fresta, se agarre à ela e trilhem seus caminhos até encontrar a saída.
É claro que não precisa confiar em mim, e às vezes acho que essa minha teoria não passa de provas de que estou ficando velho. Mas tudo bem, já chega.
Enfim, tenho que ir, meu tempo acabou e meu papel também. Tenho um encontro marcado e Ela já esperou demais...
- # ultima nota de um velho suicida qualquer.
que pft cara, parabens, adorei :33
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